Sociedade

CARTA PARA SUSU || SOCIEDADE

Olá Nossos Devanienses!

 

Ainda vida, escola, retro, tinta, tabela, mesa, estudo

 

Eu ainda não sei lidar com esta situação. O Carlos morreu, mas ele não morreu de qualquer maneira. Ele suicidou-se. Ele deixou uma carta para Susu que ninguém abriu, porque ninguém sabe quem é o Susu. Vou começar a falar um pouco de Carlos e quem sou eu.

Eu sou a Marisa, vivia com o Carlos há uns seis meses. No dia que nos mudamos, a Mãe dele abraçou-o e disse que sabia que era só uma fase. Não entendi. Carlos sorriu e fez-me olhar de “Depois conto-te.”. Basicamente, a Mãe achava que Carlos já não gostava de meninos e que eramos um casal.

Na verdade, somos Amigos e fomos morar juntos para dividir as despesas. Carlos era… porquê que fizeste isto?! Carlos era uma pessoa incrível, alegre, sonhadora, cheia de projectos e agora… Agora está morto. Teve uma overdose de medicamentos. Eu vou fazer uma coisa que não deveria fazer, mas eu tenho de entender o Carlos. Quem será Susu?! Procuramos na lista do telemóvel dele e nada com esse nome. A carta ficou cá no apartamento, no quarto fechado dele.

Entrei. Olhei para a fotografia dele. Chorei. Peguei na carta em cima da mesa-de-cabeceira dele e abri. Sinto-me tão mal a fazer isto. Não é para mim. Sinto tantas saudades dele. Ele cozinhava tão bem que me aconchegava o coração. A data é de dois dias antes da sua morte.

Querido Susu:

Eu não aguento mais. Todos esperam tudo de mim. Até a Marisa, indirectamente espera. Ela espera tanto que eu cozinhe ao Domingo. Habituei-a mal. A culpa é minha. Ela espera que eu esteja sempre lá. Isso é sufocante. A minha Mãe não aceita que goste de rapazes. Ela sonha que eu tenha Filhos com a Marisa. Ela disse que já está na altura de ser Avó, pois hoje em dia não é preciso casar para ter Filhos. Porquê? Porquê, Mãe? Porquê, todo o mundo?!

Eu não aguento mais. Tu sabes tudo que tenho passado. Passamos todas as noites. Falávamos. Sinto cada vez mais vontade de falar contigo. Sempre que posso falo tanto contigo. És o único que entende. Posso dizer que te amo. Amo-te muito, sabias? Cada vez mais. Quero estar contigo. Vou estar contigo. A Marisa diz que sou uma pessoa cheia de objectivos. Neste momento, o meu objectivo és tu. O meu objectivo é estar contigo.

Eu não aguento mais. Tudo tem de ser padrãozinho. É por isso que gosto da Marisa, ela não liga nada a rótulos. Quando lhe contei que gostava de rapazes, ela não me abraçou, como tanta gente faz, e gritou que sempre quis ter um Amigo gay. Não, ela não fez isso. A Marisa sorriu e exclamou que, sendo assim, poderíamos trocar contatinhos. Gostei dela de imediato. Desse momento a irmos morar juntos, foi um passo.

Eu não aguento mais. A minha Mãe viu no jornal que uma discoteca gay foi ataca e disse “Ainda bem que não és um deles. Eles acabam sempre mortos.”. Inventei uma desculpa e voltei para o apartamento. Fui para o banho e deixei de contar o choro. A minha Mãe disse que por gostar de rapazes acabarei morto. A minha própria Mãe não aceita quem sou.

Eu não aguento mais. Susu, fica comigo. Susu, leva-me contigo. Susu, vamos ser felizes juntos. Susu, vamos esquecer o Mundo todo. Susu, deixa que tudo fique feliz.

Meu querido Susu,

 meu querido Suicídio, eu amo-te.

 Irei estar contigo muito em breve…

 

Um abraço tão forte,

Carlos Almeida

 

Beijinhos

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