Texto Pessoal

Texto Pessoal || O Balneário Que tudo Via

Olá Nossos Devanienses!

Hoje venho partilhar com vocês um texto que ando a escrever. Espero que gostem.

Foi ontem, dia 4 de Fevereiro de 2015, quarta-feira. Foi trágico e eu vi tudo. Vi tudo e nada pude fazer. Cecília, a tão bela Cecília. Fazíamos ontem um ano e era o seu aniversário. Fez 18 anos e morreu. Foi morta e eu nada pude fazer. Nem vi o rosto de quem a matou… ou será que vi?

O balneário do ginásio onde ela morreu é em frente à minha casa e eu nada pude fazer. A porta e as janelas do meu quarto trancaram-se ao mesmo tempo quando ela começou a ser morta e só se destrancaram quando ela morreu. Eu fui obrigada a assistir a tudo. Desde o barulho das coisas a trancarem-se até se voltarem a destrancar. Algo me prendia aquela cadeira.

Devem-se estar a perguntar como é que eu vi a minha namorada a ser morta no balneário do ginásio em frente à minha casa duma cadeira do meu quarto. A resposta é simples. Na véspera de namorar com a Cecília, eu e o meu melhor amigo colocamos micro-câmaras de filmar no balneário feminino. A Cecília só se mudou para aquele ginásio há duas semanas para passarmos mais tempo juntos. Maldita mudança!

Tínhamos combinado um jantar para comemorar os dois aniversários.

O meu telemóvel começa a tocar e eu, por segundos, desejo que seja ela, em vão, pois ela está morta. É o meu melhor amigo.

-Olá. – Atendo.

-Olá, sócio. O que estás a pensar fazer? – pergunta-me ele.

-Em relação? – não estou a entender.

-Vais mostrar as filmagens ou não? – quer saber ele.

-Não sei, meu. – deixo sair.

-Estou contigo, meu irmão. – Diz ele. – Ela era uma miúda porreira.

-Eu depois digo-te algo. Tchau. – desligo.

Rapariga porreira? Ela era perfeita! A mulher perfeita para mim.

Quem me dera que estivesses aqui agora, Cecília. Fazes-me falta a cada segundo, a cada batida do meu coração tão apertado sem ti. Amo-te. Alguma vez to disse? Agora sinto-o de verdade. O teu doce sorriso sempre lá. O teu abraço. O modo como me acalmavas. Onde está isso tudo agora? Contigo. E onde estás tu? O mais longe de mim.

Sábado será o teu funeral e eu não vou. Não quero admitir que foste embora de vez. Embora de mim. Embora no nosso aniversário. Nosso…

Começo a contar os dias sem ti? O que faço, Cecília, já que não ficaste? Como viver sem ti?!

Batem à porta. Cortam o meu pensamento.

-Filho, não queres comer nada? – a minha mãe está na porta com uma bandeja na mão.- Não comes desde ontem. Tens de te alimentar.

-Mãe…-ia começar, mas calo-me.

-Tens de comer. – pousa o tabuleiro na minha cama. – Ela era uma boa moça… – pousa a mão no meu ombro.

-Era, Mãe? – não ouso olhar para ela.

-Deus assim quis… acho eu. – ela tenta sorrir.

-Sempre me deste a entender que não tinhas a certeza de tudo…  afirmo levemente.

-Chegou uma carta para ti. Só tem o teu nome. Come e lê. Podem ser boas notícias. – com esta  beija-me a testa e sai.

Olho para o tabuleiro. Tenho de comer. A tristeza é minha, não devo arrastar mais ninguém. Pego no queque e dou uma dentada. Porém, a carta chama-me a atenção. Abro-a e começo a ler, cada vez mais depressa. A carta não faz sentido. Não faz. Não faz! As lágrimas caiem-me pela cara. Não faz sentido!

Filipe,

            Devo começar pelas presentações? Sou o teu pai e até te roubarem de mim, chamavas-te Ângelo, porque eras o meu anjo. Eras o menino mais lindo da Vila. Ainda te lembras? Eras tão pequenino. Quero contar-te tudo. Anda ter comigo ao parque. Não te preocupes em reconhecer-me, eu reconhecer-te-ei.

Germano Antunes

 

            Pai? Pai?! A Mãe traiu o Pai? O Miguel, o marido dela?

Pego no casaco preto. Vou a correr para o parque. “Deve ser engano.”, grita o meu pensamento cansado. Paro à entrada do parque. Estou ofegante. Tento regular a minha respiração Sinto uma mão dura no meu ombro.

– Eu sabia que virias, Ângelo. – disse uma voz masculina e rouca.

Encarei-o. Tão parecido como mas com feições envelhecidas.

Tiro-lhe a mão brutamente.

-O meu Pai é o Miguel. O marido da minha Mãe. Ela pode ter estado consigo. Terem sido amantes, mas ele é o meu Pai. Pai é quem cria e ele sempre esteve lá. E o meu nome é Filipe. Filipe Serval. – viro-lhe as costas.

Ele agarra-me no braço (Que falta de educação e ainda diz que é meu Pai.) e encaro-o.

-Foi o que te disseram? – o olhar dele é desconfiado. – A tua Mãe chamava-se Alice. Morreu antes de te roubarem de mim…

-O quê? – estou confuso.

-Sim, tu és adoptado. – diz ele serenamente. – Ainda tens o livro da tua Mãe “ Alice no País das Maravilhas”?

“Para o meu pequeno. Cada magia deste livro é sinónimo do meu amor por ti. Alice.”

-Sim, tenho, mas a Mãe disse-me que Alice era o nome duma tia. – penso, mas não digo, antes disso afirmo que não.

Uma mentira magoada. A primeira que disse.

-Não te queriam ligar a nós… – a voz dele é calma.

-Melhor assim. Tenho 15 anos e nunca tive notícias suas. Porquê agora?! – mostro mais raiva do que gostaria.

-Porque… – a voz dele perde a segurança. – Voltaremos a ver-nos, Ângelo. – com esta desaparece na multidão.

Deixa-me ali especado. Volto para casa cheio de dúvidas.

O meu quarto tem a porta aberta. A Mãe está sentada na minha cama com a carta na mão.

-Filho… – diz ela ao ver-me, mas não se mexe.

-Está tudo bem. – retiro o casaco e pouso-o de novo na cadeira. – Sou adoptado, mas vocês são os meus Pais.

-Mas, filho… – tenta ela.

-Eu estive com o Senhor Germano Antunes, mas já lhe disse que vocês são os meus Pais e que o meu nome é Filipe. Está tudo igual. Está tudo bem.  – respiro fundo e olho para o livro em cima da minha mesa-de-cabeceira “Alice no País das Maravilhas.”. Culpado.

-Mas, Filho, o teu Pai mo… – fecha os olhos. – morreu. O Senhor Germano morreu. – abre os olhos.

-Não, Mãe, está vivo e é muito parecido comigo ou eu com ele. Tanto faz. – finjo não querer saber.

-Ele foi dado como morto… – começa ela. – Ele foi preso e tu foste adoptado. Disseram que ele morreu na prisão. Realmente, és muito parecido com ele. – afirma. – Um truque para fugir, não sei.

-Preso?! – nem quero acreditar.

-Ele matou a tua Mãe. – abraça-me. – Desculpa, Filho. Não há nenhuma Tia Alice. – diz ela com medo.

-Eu sei… – respiro fundo. – Vocês são os meus País, só vocês.

 

*

 

O dia amanheceu cedo nesta Sexta-feira. Dois dias. Pego no livro “Alice no País das Maravilhas, tiro a carta do Senhor Germano do meio e leio-a mais uma vez. Só mais uma vez. Coloco-a no mesmo sítio e pouso o livro no mesmo lugar de sempre.

Filho dum assassino. Quem diria? Depois de ver a minha namorada ser morta, descubro que o meu Pai de sangue matou a minha Mãe. Surreal demais. No mínimo. Não pode ser a realidade. Minha pequena Cecília, acorda-me.

Não estou preparado para tanta realidade. Como lidar com isto tudo sem ti, Cecília? É isto a adolescência? Que vá para longe! Adolescência deste inferno!

Recebo uma mensagem do meu melhor amigo “Bota juízo na mente. Admite tudo, pois a culpa não é minha. Vou voltar a beber para esquecer!”. Que estranho! Não é nada dele. Tento-lhe ligar, mas está indisponível. Ele não brinca com estas coisas. Ele sabe que não sou o culpado.

O computador liga-se. Aparecem as imagens da morte da Cecília e… o César a mata-la! Devo estar a sonhar! O meu melhor amigo não seria capaz! A imagem desfoca. No ecrã está escrito “3 de Fevereiro de 2015”. A seguir, aparece a imagem da Cecília ,no balneário, envolvida com o César. Mentira! Ela dizia que me ia deixar. Por fim, aparece a frase a branco num fundo preto: Todas as mulheres traem.

Belisco-me. Não estou a sonhar. Pego no casaco preto e saiu. Vou ao parque para acalmar as ideias. Sinto uma mão no meu ombro acompanhado dum arrepio. É o tal homem de novo.

-Não é tarde para estares fora de casa, Ângelo? – a voz dele é calma.

Afasto-me dele.

-Deixe-me, por favor, deixe-me.

Quando volto a olhar, ele não se encontra lá. Será um sonho? Tudo naquela noite foi estranho desde a mensagem do César. Devo estar a sonhar, só pode. Só assim, faz sentido. Ou até mesmo maluco, mas com a de certeza de que sou bom rapaz.

Volto para casa. Continuo sem voltar para trás. Parece que vejo de relance aquele homem que se intitula de meu Pai. Engano meu. Estou sozinho nesta triste rua, nesta triste noite nua. Nem uma estrela para me guiar. Sinto um arrepio. Acho que sinto arrepios desde que vi aquele homem.

Estive tão perto do que queria. Sentia-me o Mundo inteiro, o Sol, a Lua. Agora são pedaços desta vida e do tempo. Neste momento, não passam de memórias daquela vida. Eu ia salvar a Cecília. Ela era vítima de violência doméstica pela parte da “Mãe”, o Pai nem sonhava. Íamos morar juntos, longe e com a ajuda dos meus Pais. Sendo ela maior, não haveria problema, grandes problemas.

(…)

 

Beijinhos

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